Inferno
Hoje tenho o inferno a queimar me a garganta. Não sei dizer exatamente onde começou a arder. Talvez porque não tenha começado hoje. Há fogos assim: passam anos enterrados nos pulmões, queimando no escuro, alimentados por brasas pequenas que toda a gente insiste em chamar de nada. Não foi nada. Não leves a mal. Estás a exagerar. Não era preciso responder assim. E eu vou-me apagando. Apago palavras antes de lhes dar voz. Apago respostas que me queimavam na garganta e mereciam ter sido ditas. Apago a vontade de perguntar por que razão a minha reação é sempre julgada com mais severidade do que aquilo que a provocou. Vou despejando baldes de água sobre mim para que os outros nunca tenham de sentir as chamas. Para que ninguém se incomode com o fumo. Para que o meu incêndio continue invisível, domesticado, sem nome. Porque uma mulher zangada é sempre um incómodo. Pode estar triste. Pode chorar baixinho. Pode fechar-se num quarto. Pode engolir a própria voz até ela se tor...