Inferno
Hoje tenho o inferno a queimar me a garganta.
Não sei dizer exatamente onde começou a arder.
Talvez porque não tenha começado hoje.
Há fogos assim: passam anos enterrados nos pulmões, queimando no escuro, alimentados por brasas pequenas que toda a gente insiste em chamar de nada.
Não foi nada.
Não leves a mal.
Estás a exagerar.
Não era preciso responder assim.
E eu vou-me apagando.
Apago palavras antes de lhes dar voz.
Apago respostas que me queimavam na garganta e mereciam ter sido ditas.
Apago a vontade de perguntar por que razão a minha reação é sempre julgada com mais severidade do que aquilo que a provocou.
Vou despejando baldes de água sobre mim para que os outros nunca tenham de sentir as chamas. Para que ninguém se incomode com o fumo. Para que o meu incêndio continue invisível, domesticado, sem nome.
Porque uma mulher zangada é sempre um incómodo.
Pode estar triste.
Pode chorar baixinho.
Pode fechar-se num quarto.
Pode engolir a própria voz até ela se tornar cinza.
Mas Deus a livre de aprender a dizer:
Isto magoou-me.
Isto foi injusto.
Isto não gostei.
Isto não aceito.
Nao quero.
Aí já não é sensível.
É malcriada.
É perigosa.
E talvez seja isso que hoje me incendeia mais.
Não aquilo que aconteceu ontem.
Nem aquilo que aconteceu hoje.
Mas todos os fósforos que fui guardando nos bolsos enquanto me pediam que cheirasse a flores. Enquanto me pediam silêncio com a delicadeza de quem chama paz à ausência da minha voz.
Hoje tenho raiva.
Uma raiva antiga, despertada por abusos contínuos. Uma raiva que aprendeu a sobreviver debaixo da língua, a arder sem fumo, a consumir-me por dentro enquanto eu sorria para não incendiar a sala.
E, pela primeira vez, não me apetece apagá-la.
Não me apetece pedir desculpa pelo calor.
Não me apetece baixar a voz para que a minha dor pareça mais aceitável.
Não me apetece transformar fogo em primavera.
Talvez não precise de destruir nada.
Talvez precise apenas de deixar a chama queimar e libertar o inferno que mora em mim.
Comentários
Enviar um comentário